TRES POEMASSUPERPUESTOS


Renata Baldi

Quadrilha (1930) Carlos Drummond de Andrade

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

 

Os Três Mal-Amados (1943) João Cabral de Melo Neto

«João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili…» (Carlos Drummond de Andrade)

JOÃO: Olho Teresa. Vejo-a sentada aqui a meu lado, a poucos centímetros de mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo neste momento?
RAIMUNDO: Maria era a praia que eu frequentava certas manhãs. Meus gestos indispensáveis que se cumpriam a um ar tão absolutamente livre que ele mesmo determina seus limites, meus gestos simplificados diante de extensões de que uma luz geral aboliu todos os segredos.
JOAQUIM: O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
JOÃO: Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se a cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos ou muitas léguas.
RAIMUNDO: Maria era sempre uma praia, lugar onde me sinto exato e nítido como uma pedra – meu particular, minha fuga, meu excesso imediatamente evaporados. Maria era o mar dessa praia, sem mistério e sem profundeza. Elementar, como as coisas que podem ser mudadas em vapor ou poeira.
JOAQUIM: O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
JOÃO: Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Tereza que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?
RAIMUNDO: Maria era também uma fonte. O líquido que começaria a jorrar num momento que eu previa, num ponto que eu poderia examinar, em circunstâncias que eu poderia controlar. Eu aspirava acompanhar com os olhos o crescimento de um arbusto, o surgimento de um jorro de água.
JOAQUIM: O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
JOÃO: Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falei-lhe, posso dizer que a tive em toda a intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? a desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?
RAIMUNDO: Maria não era um corpo vago, impreciso. Eu estava ciente de todos os detalhes do seu corpo, que poderia reconstituir à minha vontade. Sua boca, seu riso irregular. Todos esses detalhes não me seria difícil arrumá-los, recompondo-a, como num jogo de armar ou uma prancha anatômica.
JOAQUIM: O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
JOÃO: Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves não apenas porque crescem e vivem no ar).
RAIMUNDO: Maria era também, em certas tardes, o campo cimentado que eu atravessava para chegar em algum lugar. Sozinho sobre a terra e sob um sol que me poderia evaporar de toda nuvem.
JOAQUIM: Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unha, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
JOÃO: Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?
RAIMUNDO: Maria era também uma árvore. Um desses organismos sólidos e práticos, presos à terra com raízes que a exploram e devassam seus segredos. E ao mesmo tempo lançados para o céu, com quem permutam seus gases, seus pássaros, seus movimentos.
JOAQUIM: O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
JOÃO: O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda esta gente da terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa…
RAIMUNDO: Maria era também a garrafa de aguardente. Aproximo o ouvido dessa forma correta e explorável e percebo o rumor e os movimentos de sonhos possíveis, ainda em sua matéria líquida, sonhos de que disporei, que submeterei a meu tempo e minha vontade, que alcançarei com a mão.
JOAQUIM: O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
JOÃO: Talvez Teresa… Sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?
RAIMUNDO: Maria era também o jornal. O mundo ainda quente, em sua última edição e mais recente.
JOAQUIM: O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
JOÃO: Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de sua geografia, sua história, sua poesia?
RAIMUNDO: Maria era também um livro susto de que estamos certos, susto que praticar, com que fazer os exercícios que nos permitirão entender a voz de uma cadeira, de uma cômoda; susto cuidadosamente oculto, como qualquer animal venenoso entre folhas claras e organizadas dessa floresta numerada que leva dísticos explicativos: poesia, poemas, versos.
JOAQUIM: O amor comeu meu estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava não saber falar delas em verso.
JOÃO: O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que a faça compreender termos sido, juntos, peixes de um mesmo mar?
RAIMUNDO: Maria era também a folha em branco, barreira oposta ao rio impreciso que corre em regiões de alguma parte de nós mesmos. Nessa folha eu construirei um objeto sólido que depois imitarei, o qual depois me definirá. Penso para escolher: um poema, um desenho, um cimento armado – presenças precisas e inalteráveis, opostas a minha fuga.
JOAQUIM: O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão me asseguram. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
JOÃO: Donde me veio a ideia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança? Desse mundo que, através de minha fraqueza, compreendi ser o único onde me será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo, caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome? Nada, nem mesmo Teresa.
RAIMUNDO: Maria era também o sistema estabelecido de antemão, o fim aonde chegar. Era a lucidez, que, ela só, nos pode dar um modo novo e completo de ver uma flor, de ler um verso.
JOAQUIM: O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

 

 

JOÃO 20:20 (2020) Renata Baldi

O ódio comeu nas minhas estantes o presente e o futuro, desentranhou um passado obscuro. O ódio comeu meu trabalho, meus amigos, meus afetos. Sem mais o que me tirar, comeu minha filha na minha frente. O ódio fez churrasco, se empanturrou, lançou excrementos em minha escrivaninha. Lá onde guardava minhas memórias e recortes de vida, lançou pá de cal. O ódio veio arrastando tudo. Sem espaço pra poesia, música, dança, arte, beleza. Sem espaço pra vida, se vestiu de morte e dançou em cima de cadáveres até o dia amanhecer. O ódio quis mais, mais e mais. Aniquilou tudo, até mesmo a vontade de gritar. O ódio semeou o ódio. O ódio enlouqueceu. Saiu nu, sem vergonha e sem pudor. O ódio morreu sem direito a missa ou velório.
No dia do enterro, só quem compareceu foi o amor.

Fotograma de Tierra en trance (1967) de Glauber Rocha

Cuadrilla (1930) Carlos Drummond de Andrade
Traducción: Julia Tomasini

João amaba a Teresa que amaba a Raimundo
que amaba a Maria que amaba a Joaquim que amaba a Lili
que no amaba a nadie.
João se fue a Estados Unidos, Teresa a un convento,
Raimundo murió en un accidente, Maria se quedó para vestir santos,
Joaquim se suicidó y Lili se casó con J. Pinto Fernandes
que no había entrado en la historia.

 

Los tres mal amados (1943) João Cabral de Melo Neto
Traducción: Julia Tomasini

«João amaba a Teresa que amaba a Raimundo que amaba a Maria que amaba a Joaquim que amaba a Lili…» (Carlos Drummond de Andrade)

JOÃO: Miro a Teresa. La veo sentada aquí a mi lado, a pocos centímetros de mí. A pocos centímetros, muchos kilómetros. ¿Por qué esta impresión de necesitar kilómetros para medir la distancia, la lejanía en que la veo en este momento?
RAIMUNDO: Maria era la playa a la que iba en ciertas mañanas. Mis gestos indispensables que se cumplían de una forma tan absolutamente libre que ella misma determina sus límites, mis gestos simplificados frente a extensiones de que una luz general acabó con todos los secretos.
JOAQUIM: El amor se comió mi nombre, mi identidad, mi retrato. El amor se comió mi certificado de edad, mi genealogía, mi dirección. El amor se comió mis tarjetas de visita. El amor vino y se comió todos los papeles donde yo había escrito mi nombre.
JOÃO: Miro a Teresa como si mirara el retrato de una antepasada que hubiera vivido en otro siglo. O como si mirara una figura en otro continente a través de un telescopio. La veo como si la cubriera el polvo finísimo o el aire casi azul que envuelve a las personas alejadas de nosotros por muchos años o muchas leguas.
RAIMUNDO: Maria era siempre una playa, lugar donde me siento exacto y nítido como una piedra; mi particular, mi fuga, mi exceso inmediatamente evaporados. Maria era el mar de esa playa, sin misterio ni profundidad. Elemental, como las cosas que pueden transformarse en vapor o polvo.
JOAQUIM: El amor se comió mi ropa, mis pañuelos, mis camisas. El amor se comió metros y metros de corbatas. El amor se comió la medida de mis trajes, el número de mis zapatos, el tamaño de mis sombreros. El amor se comió mi altura, mi peso, el color de mis ojos y el de mi pelo.
JOÃO: ¿Puedo decir de esa joven que está a mi lado que es la misma Teresa que durante todo el día de hoy, por efecto del gas del sueño, sentí pegada a mí?
RAIMUNDO: Maria era también una fuente. El líquido que comenzaría a brotar en un momento que preveía, en un punto que podría examinar, en circunstancias que podría controlar. Yo quería seguir con los ojos el crecimiento de un arbusto, el surgimiento de un chorro de agua.
JOAQUIM: El amor se comió mis medicinas, mis recetas médicas, mis dietas. Se comió mis aspirinas, mis ondas cortas, mis radiografías. Se comió mis estudios mentales, mis exámenes de orina.
JOÃO: ¿Es esta la misma Teresa que anoche conocí en total intimidad? ¿Puedo decir que la vi, le hablé, puedo decir que la tuve en toda la intimidad? ¿Qué intimidad existe más grande que la del sueño? ¿La de ese sueño que todavía traigo en mí como un objeto que me pesara en el bolsillo?
RAIMUNDO: Maria no era un cuerpo abstracto, impreciso. Yo sabía todos los detalles de su cuerpo, podría reconstituirlos si quisiera. Su boca, su risa irregular. Todos esos detalles no me sería difícil ordenarlos, recomponiéndola, como en un juego de armar o una plancha anatómica.
JOAQUIM: El amor se comió en la biblioteca todos mis libros de poesía. Se comió en mis libros de prosa las citas en verso. Se comió en el diccionario las palabras que podrían juntarse en versos.
JOÃO: Todavía me parece sentir el mar del sueño que inundó mi cuarto. Todavía siento la ola llegando a mi cama. Todavía me sigue volviendo la sorpresa de despertar entre muebles y paredes que no comprendía que pudieran estar secos. Y sin rastros de aquella agua que el sol secó pero de cuyo contacto aún me siento friolento y algo húmedo (pienso ahora que sería más justo, del mar del sueño, decir que el sol lo ahuyentó, porque los sueños son como las aves no solo porque crecen y viven en el aire).
RAIMUNDO: Maria era también, en ciertas tardes, el campo de cemento que yo cruzaba para llegar a algún lugar. Solo sobre la tierra y bajo un sol que me podría evaporar de toda nube.
JOAQUIM: Hambriento, el amor devoró los utensilios de mi uso: peine, navaja, cepillos, tijeras de uñas, cortapluma. Aún hambriento, el amor devoró el uso de mis utensilios: mis baños fríos, la ópera cantada en la ducha, el calentador de agua de fuego muerto pero que parecía una usina.
JOÃO: Teresa aquí está, al alcance de mi mano, de mi conversación. ¿Por qué, sin embargo, me siento sin derechos fuera de aquel mar? ¿Ignorante de los gestos, de las palabras?
RAIMUNDO: Maria era también un árbol. Uno de esos organismos sólidos y prácticos, agarrados a la tierra con raíces que la exploran y desbordan sus secretos. Y al mismo tiempo arrojados al cielo, con quien intercambian sus gases, sus pájaros, sus movimientos.
JOAQUIM: El amor se comió las frutas puestas sobre la mesa. Bebió el agua de los vasos y de las vasijas. Se comió el pan a propósito escondido. Bebió las lágrimas de los ojos que, nadie sabía, estaban llenos de agua.
JOÃO: El sueño vuelve, me envuelve nuevamente. La ola una vez más golpea contra mi silla, amenaza llegar hasta la mesa. Pienso que, en medio de toda esta gente de la tierra, gente que parece haber echado raíces, como un labrador o una colina, soy el único que escucha este mar. Quizás Teresa…
RAIMUNDO: Maria era también la botella de aguardiente. Acerco el oído de esa forma correcta y explorable y percibo el rumor y los movimientos de sueños posibles, aún en su materia líquida, sueños de los que dispondré, que someteré a mi tiempo y mi voluntad, que alcanzaré con la mano.
JOAQUIM: El amor volvió para comerse los papeles donde irreflexivamente yo había vuelto a escribir mi nombre.
JOÃO: Quizás Teresa… Sí, ¿quién me dirá que ese océano no nos es común?
RAIMUNDO: Maria era también el diario. El mundo aún caliente, en su última edición y más reciente.
JOAQUIM: El amor mordisqueó mi infancia, de dedos sucios de tinta, el pelo cayendo en los ojos, botines jamás lustrados. El amor mordisqueó al niño esquivo, siempre en los rincones, y que subrayaba los libros, mordía el lápiz, andaba en la calle pateando piedras. Mordisqueó las charlas, junto a la estación de servicio de la plaza, con los primos que todo lo sabían sobre pajaritos, sobre una mujer, sobre marcas de autos.
JOÃO: ¿Puedo esperar a que ese océano nos sea común? ¿Un sueño es una creación mía, nacida de mi tiempo adormecido, o existe en él una participación externa, de todo el universo, de su geografía, su historia, su poesía?
RAIMUNDO: Maria era también un libro: susto de que estamos seguros, susto que practicar, con que hacer los ejercicios que nos permitirán entender la voz de una silla, de una cómoda; susto cuidadosamente oculto, como cualquier animal venenoso entre hojas claras y organizadas de esta selva numerada que lleva dísticos explicativos: poesía, poemas, versos.
JOAQUIM: El amor se comió mi estado y mi ciudad. Drenó el agua muerta de los mangles, suprimió la marea. Se comió los mangles crespos y de hojas duras, el verde ácido de las plantas de caña que cubren las montañas regulares, cortadas por las barreras rojas, por el trencito negro, por las chimeneas. Se comió el olor de la caña cortada y el olor de la niebla del mar. Se comió hasta estas cosas de las que desesperaba no saber hablar de ellas en verso.
JOÃO: ¿El arbusto o la piedra aparecida en cualquier sueño puede ser indiferente a la vida de la que está participando? ¿Puede ignorar el mundo que está ayudando a poblar? ¿Es posible que sientan esta participación, estos fantasmas, esta Teresa, por ejemplo, ahora distraída y distante? ¿Hay alguna señal que la haga comprender que fuimos, juntos, peces de un mismo mar?
RAIMUNDO: Maria era también la hoja en blanco, barrera opuesta al río impreciso que corre en regiones de alguna parte de nosotros mismos. En esta hoja construiré un objeto sólido que después imitaré, y que después me definirá. Pienso para elegir: un poema, un dibujo, un concreto armado. Presencias precisas e inalterables, opuestas a mi fuga.
JOAQUIM: El amor se comió hasta los días no anunciados aún en los calendarios. Se comió los minutos adelantados de mi reloj, los años que las líneas de mi mano me aseguran. Se comió al futuro gran atleta, al futuro gran poeta. Se comió los futuros viajes alrededor de la tierra, las futuras bibliotecas alrededor de la sala.
JOÃO: ¿De dónde me vino la idea de que Teresa tal vez participe de un universo privado, cerrado en mi recuerdo? ¿De ese mundo que, a través de mi debilidad, comprendí que es el único donde me será posible cumplir los actos más simples, como por ejemplo caminar, beber un vaso de agua, escribir mi nombre? Nada, ni siquiera Teresa.
RAIMUNDO: Maria era también el sistema establecido de antemano, el fin a donde llegar. Era la lucidez, que, ella sola, nos puede dar un modo nuevo y completo de ver una flor, de leer un verso.
JOAQUIM: El amor se comió mi paz y mi guerra. Mi día y mi noche. Mi invierno y mi verano. Se comió mi silencio, mi dolor de cabeza, mi miedo a la muerte.

 

JOÃO 20:20 (2020) Renata Baldi

El odio se comió en mis bibliotecas, el presente y el futuro, desenterró un pasado oscuro. El odio se comió mi trabajo, mis amigos, mis afectos. Sin tener más que quitarme, se comió a mi hija frente a mí. El odio hizo un asado, se atiborró, lanzó excrementos en mi mesa en la oficina. Allí, donde ponía mis memorias y recortes de vida, todo se acabó. El odio vino arrastrando todo. Sin espacio para la poesía, danza, arte, belleza. Sin espacio para la vida, se vistió de muerte y danzó sobre cadáveres hasta el amanecer. El odio quiso más, más y más. Aniquiló todo, hasta la voluntad de gritar. El odio sembró el odio. El odio se volvió loco. Salió desnudo, sin vergüenza y sin pudor. El odio murió sin misa o funeral. En el día del entierro, solamente vino el amor.

Fotograma de El séptimo sello (1957) de Ingmar Bergman


Renata Baldi

Soy periodista, trabajo en el campo audiovisual desde 1997. Escribir es la materia prima de mi trabajo – en la dirección y edición de documentales, en la producción de textos. Mientras pensaba en la post-pandemia, miré el presente y soñé con el porvenir. Mientras soñaba, escribí un poema, que es seguramente una copia de João Cabral de M. Neto, que a su vez, tuvo como inspiración a Carlos D. de Andrade.

Julia Tomasini

Coordinó clínicas de traducción y tradujo a poetas y novelistas contemporánexs de Brasil y Portugal. Escribe poesía y teatro. Es doctora en letras y magíster en escritura creativa.